Marcio Kogan, seu lindo!

Casa Bahia by Marcio Kogan. LINDA!!!!

E gostei mais ainda do Marcio depois de ler essa entrevista abaixo. Até porque ele cita meus diretores favoritos: Kubrick,  Bergman, Buñuel e Fellini!

O arquiteto Marcio Kogan é o autor de uma série de belas residências – algumas delas laureadas em várias edições das premiações da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea) e do IAB/SP -, assim como do projeto do hotel Fasano em São Paulo (leia PROJETO DESIGN 288, fevereiro de 2004) – desenvolvido em parceria com Isay Weinfeld, com quem Kogan compartilha também suas incursões na direção cinematográfica – e de outras tantas edificações comerciais. Faz parte de sua filosofia de atuação o acompanhamento da obra e a experimentação como elemento de inspiração para a arquitetura, o que explica sua percepção de que a atividade se aprende lentamente. Nesta entrevista, Kogan fala dos trabalhos polêmicos que desenvolveu durante a faculdade, do sentido de sua obra, de cinema e suas relações com a arquitetura, e também das exposições e projetos hipotéticos que concebe para se comunicar e discutir os problemas urbanos.
O que o levou à arquitetura?

Um fato obviamente marcante é que meu pai era engenheiro-arquiteto. Quando ele morreu eu tinha oito anos, mas já costumava visitar obras com ele. Isso me influenciou muito e acho que é aí que começa a história.

E depois?

Num segundo momento comecei a me apaixonar pelo cinema, e surgiu, então, a dúvida entre cinema e arquitetura. Acabei realizando com Isay [Weinfeld] 13 curtas e um longa-metragem, desde antes de entrar na faculdade até começar o curso de arquitetura. Com este filme descobri que minha vocação era mesmo ser arquiteto.

Por quê?

Principalmente porque o processo de execução do longa foi doloroso, talvez não tão profissional. Isso me perturbou e eu voltei para o escritório. Acontece que naquele momento o escritório estava totalmente quebrado, sem clientes: eu tinha ficado fora durante seis meses para realizar o filme. Recomecei então minha carreira, consciente do que deveria ser feito. Isso foi muito marcante profissionalmente, porque antes, em todos os momentos da faculdade, nunca tive um arquiteto, um ídolo, alguém em quem me espelhar, de quem gostasse. Minha formação dentro da arquitetura era totalmente cinematográfica.

Em que sentido?

No sentido de ser uma forma de contar uma história – é o que acontece em algumas exposições que realizei com Isay, como “Arquitetura e Humor” e “Happyland”. No sentido de poder, através da arquitetura, mandar uma mensagem, que no meu caso sempre foi feita com humor, crítica social, urbanística, arquitetônica e que tem, enfim, um pouco da dinâmica de se contar uma história. Eu só fazia isso na faculdade, nunca tinha feito um projeto de verdade.

Como isso se encaixava na estrutura acadêmica?

Era bem polêmico. Tive dezenas de dez e dezenas de zeros – eu era dos extremos e isso me motivava bastante. Não só nas aulas de projeto, em todas as outras matérias eu tinha a mesma atitude. Lembro-me daquelas aulas fascistas de estudo dos problemas brasileiros. Fiz uma prova que acabou desencadeando o pedido de demissão de um professor, felizmente. Num trabalho de projeto, por exemplo, sobre a reurbanização da [rua] Major Sertório, que se encontrava cheia de inferninhos, fiz uma praça dedicada à Laranja mecânica [dirigido por Stanley Kubrick]. Na época, era um filme proibido. Eu me baseei na partitura da Nona Sinfonia de Beethoven, misturando desenhos de arquitetura a outros pornográficos, que iam explicando a nova praça. Esse trabalho foi censurado, não poderia ser mostrado em classe. Os professores argumentavam que poderia haver entre os alunos alguma filha de militar, coisas assim, totalmente absurdas, mas compatíveis com a época em que vivíamos, nos anos 70.

Sua primeira motivação profissional foi visitar obras, em seguida veio uma leitura derivada do cinema. Como enxergava a arquitetura nesse ínterim?

Acho que o fator que mais me influenciou foi a história da morte do meu pai, algo muito triste e solitário, angustiante, que acabou marcando minha personalidade. Quando eu tinha entre 15 e 16 anos, fui assistir ao filme O silêncio, de [Ingmar] Bergman. Tinha entrado desavisado no cinema, sem saber o que veria, mas o filme acabou mudando a trajetória da minha vida, na compreensão do significado da palavra arte, ao ver toda a minha solidão expressa de forma tão magnífica. Saí de lá totalmente mudado, minha cabeça começou a se voltar para o cinema. Minha vida era em branco-e-preto e depois de assistir a um filme em branco-e-preto ela ficou colorida.

E a arquitetura?

Um belo dia me formei e não sabia o que fazer no mundo exterior. Estava completamente despreparado. Cheguei a achar que seria um teórico de arquitetura. Era disso que eu gostava, embora não soubesse achar um espaço para essa forma de atuação. Mas, por uma questão de sobrevivência, tive que começar a fazer arquitetura de verdade, e eu não sabia o que era isso.

Estamos, aqui, falando desse período de dez anos entre sua formação e o longa?

Exatamente. Desde então, fui aos poucos achando lentamente meu caminho. Acho que tive formação demorada, até começar a realizar um trabalho um pouco melhor. Minha formação acadêmica era tão carente que o caminho profissional acabou sendo longo. Mas, por outro lado, acho que isso é favorável, no sentido do desenvolvimento de um olhar.

Que olhar?

No entendimento das proporções, na forma de olhar uma obra, de emocionar. Acho que, no atacado, funcionou, embora eu tenha demorado muito tempo para descobrir os instrumentos da arquitetura real, que a fazem funcionar.

Está falando, então, sobre o desenvolvimento de um método pessoal de projetar?

Sim, eu era totalmente desprovido de uma base projetual, técnica até. Saí realmente muito despreparado da faculdade, mas feliz. Foi recompensador tudo o que eu fiz na escola e mesmo a polêmica que meus trabalhos sempre despertaram. Era uma época fascista, tínhamos que mexer um pouco com o ambiente, que era extremamente conservador. Vínhamos de uma época de ouro da arquitetura brasileira, dos anos 40 aos 60, culminando com a inauguração de Brasília. Isso tinha uma força descomunal, todo o meio acadêmico olhava apenas para isso. Só que estávamos já no final dos anos 70, com outras coisas acontecendo no mundo.

 

A arquitetura era uma grande interrogação naqueles anos, não?

Não só naquele momento, mas ao longo dos dez anos seguintes também. Eu não estava mais interessado no que era Niemeyer, queria olhar outras coisas. Existia essa doutrina, que durou mais alguns anos, os da chamada geração perdida. Mesmo no meio acadêmico paulista havia a onipresença de Niemeyer. Tanto que, na minha época de estudante, odiava ouvir falar sobre ele. Acho que ainda continua assim, mas aprendi a respeitá-lo um pouco mais.

Por quê?

Acho que amadureci e comecei a ver que era realmente um grande trabalho. Já estava distante daquela raiva ou desconfiança em relação ao fato de uma pessoa dominar totalmente a cena, não deixando espaço para mais ninguém. Não era só ele que fazia um trabalho legal. Nos anos 40 e 50 havia muita gente fazendo trabalho de incrível qualidade.

Fale um pouco sobre sua retomada da arquitetura.

Era necessário decidir: não dava para fazer arquitetura e cinema ao mesmo tempo. Isso foi possível na época dos curtas-metragens, mas o curta virou longa, o que era impossível de conciliar com o cotidiano de um escritório de arquitetura. Tanto que, quando o fiz, perdi todos os clientes que tinha.

Sua volta à arquitetura foi traumática?

Sim, recomecei praticamente do zero. Acho que ainda estou longe de chegar onde quero, tenho muito para aprender. Talvez tenha andado uns 30% do meu caminho. Em suma, acho que isso aconteceu de forma mais lenta do que o normal.

 

E o que você aprendeu?

Acho que tudo passa pelo fato de eu ser muito crítico: nunca tenho o prazer de entrar numa obra e desfrutar do que fiz. Só vejo os problemas e penso no que não farei nos próximos trabalhos. Essa obsessão profissional não me deixa ter muito prazer. Estou sempre em movimento, tentando apurar minha arquitetura.

Como se dá seu processo de criação?

Novamente vou recorrer ao cinema. O roteirista Jean-Claude Carrière, que fez os filmes de [Luis] Buñuel, explicou seu processo criativo como sendo uma grande debilidade. Para mim é similar: a cada momento vou visualizando pequenos pedaços, até que certa hora tudo se forma. Isso no sentido da extrema simplificação, de ir reduzindo o projeto o máximo possível. Desenho muito à mão, e no computador também. Gasto um bloco de papel manteiga por dia, e eu mesmo renderizo alguns projetos, para ficar olhando cada cantinho. Sai muito sangue desse processo.

Esse processo demanda muito tempo.

Muito. É uma luta diária conseguir mais tempo para o desenvolvimento dos projetos, mas só libero os desenhos quando estou satisfeito com o resultado. E também faço muitos projetos residenciais, que são totalmente diferentes dos comerciais. Trata-se do sonho das pessoas, e eu sou um pouco o tradutor desses sonhos, de forma que a primeira apresentação do projeto para o cliente é sempre traumática. Tanto positiva quanto negativamente. É a primeira vez que eles se deparam com a materialização de seus desejos, o que demora geralmente uns três meses.

Seu escritório, então, produz poucos projetos simultaneamente?

Sim, ele é propositalmente pequeno. Somos como uma família. Desde o início discutimos coletivamente todas as idéias, tanto porque gosto de compartilhá-las quanto pelo fato de nossos projetos serem extremamente detalhados. Não conseguiria fazer tudo sozinho; também não conseguiria aparecer como o autor isolado de um projeto. Isso vem desde os tempos do cinema, que é um meio coletivo, ao contrário da arquitetura, que se tornou profissão de nome único. Só que, assim como no cinema, em que aparecem o diretor de fotografia, os atores, a equipe, enfim, a arquitetura é também um ato de criação coletiva.

O cinema também está mais habituado a conviver com a crítica. A arquitetura está se tornando muda?

No Brasil há pouca discussão sobre arquitetura, principalmente nos meios de maior alcance. Não abrimos o jornal e nos deparamos com a crítica de uma obra. Isso é muito comum no mundo inteiro, mas não existe por aqui.

Quais são os elementos de identidade do seu trabalho?

Eu costumava fazer obras muito brancas, como é o meu escritório, por exemplo. Há cerca de dez anos, contudo, um cliente me pediu que não fizesse uma casa totalmente branca, ele queria que fossem usados materiais naturais. Foi um bom caminho, porque a minha arquitetura, que era muito fria, ganhou equilíbrio. Desde então, sempre que possível tento utilizar materiais mais arrojados junto com os tradicionais, próprios ao local do projeto. Acho que isso funciona, as pessoas se sentem bem no espaço. Sobre a minha linguagem, então, creio que dois aspectos importantes são a limpeza do pensamento arquitetônico – em geral crio linhas e volumes muito claros e definidos, com proporção que remete ao cinema – e trazer emoção aos espaços, o que também está ligado ao cinema.

Fale sobre essa relação da proporção com o cinema.

Penso no elemento forte do cinema, o widescreen. Vejo a arquitetura um pouco através dessa lente, muito mais alongada horizontalmente. É assim que trabalho. Desde o mobiliário até os espaços interno e externo, todos os elementos acabam obedecendo um pouco a essa regra.

Isso não representa uma limitação em termos de programas e tipologias?

Acho que não. É uma regra totalmente aplicável a várias situações. Nesse sentido, a combinação da arquitetura que eu já fazia com a chegada dos materiais foi feliz. Minha arquitetura era mais fria, futurista, e o equilíbrio foi bom. Lógico que é bem mais trabalhoso. Uma parede de pedra tem no seu desenvolvimento uns dez testes de aplicação. Mas isso faz parte do meu caminho de inovação e também da cultura de obra aqui do escritório. Acho que é prazeroso ver os espaços surgindo com a construção.

A arquitetura se aprende lentamente?

Ao contrário do cinema, acho que a arquitetura é algo de difícil depuração. É pouco provável que um arquiteto realize grandes trabalhos antes dos 40 anos, e isso me enlouquecia no começo. Acontece também que as oportunidades profissionais são crescentes, quer dizer, uma obra um pouco melhor leva você a um cliente um pouco melhor, que lhe dá oportunidade um pouco melhor, e assim por diante. É uma espiral, na verdade, mas eu não tinha paciência para isso. Pensava sempre que podia fazer muito melhor do que estava fazendo. Chega a hora em que você começa a controlar as suas ansiedades. Mas, de fato, a arquitetura é uma corrida de longa distância.

Gosta de acompanhar a arquitetura atual?

Ao contrário do começo de carreira, hoje me interesso bastante. Acho que o Brasil retomou um bom momento. Gosto das arquiteturas holandesa e japonesa contemporâneas, dos portugueses também, enfim, tem tanta qualidade que até incomoda um pouco. Há pouco tempo nós aqui do escritório fizemos um tour para ver a arquitetura holandesa. Esse tipo de atitude é importante até para entendermos do que gostamos ou não. É preciso olhar para entender. Recentemente conheci várias obras de Frank Gehry e descobri que odiava.

Por quê?

É um fachadismo, tanto o museu de Bilbao quanto o Wall Disney Concert Hall. O que ficou também bastante claro com o documentário sobre Gehry feito por Sydney Pollack. Acho as obras mal detalhadas, mal resolvidas, não me emocionam. Ver a obra dele foi fundamental para o meu entendimento.

Sua biblioteca é repleta de obras sobre a pop art. É também uma influência em seu trabalho?

Junto com o cinema, a pop art americana também me influenciou muito. Eu era completamente fanático por Andy Warhol, pelos seus filmes underground dos anos 60.

Mas a pop art tem tanta explosão de cores e sua obra era tão branca!

Me encantava a crítica. Eu poderia participar de um quiz show sobre Andy Warhol. Sabia tudo sobre ele, li todos os livros, vi todos os filmes. Talvez use pouco essas referências hoje em dia, mas é algo que acaba incorporado pela alma. Isso fez parte da minha juventude, dos meus anos de faculdade, da minha carreira de arquiteto, enfim, a arquitetura conceitual que fiz dentro da escola era totalmente pop.

Qual o desafio da arquitetura contemporânea?

Há algum tempo existem ações extremamente luxuosas e ricas na Europa, com a sobreposição de várias camadas numa só fachada. São três ou quatro fachadas num prédio, o que para a cultura brasileira, em que mal se consegue fazer uma camada bem-feita, parece sem sentido. Acho que as coisas aqui, felizmente, são pé no chão, como é o caso também da arquitetura contemporânea portuguesa. Não temos supérfluos, e considero isso uma qualidade. A sustentabilidade, por sua vez, é um caminho sem volta. Nosso escritório está incorporando novos conhecimentos às práticas sustentáveis que já utilizávamos, como a ventilação cruzada. Não se trata de algo tão novo: são conhecimentos familiares à arquitetura modernista brasileira, mas precisam ser reorganizados.

E suas exposições sobre arquitetura e cidade, feitas com Isay Weinfeld?

Foram reedições dos trabalhos que realizamos na faculdade. A primeira delas, chamada “Arquitetura e Humor”, já deve ter dez anos. Era uma crítica à cidade de São Paulo e incorporava um projeto da época acadêmica. Todas elas têm fundo crítico, social e um pouco de humor. Quando falamos sobre a violência na cidade, por exemplo, estávamos tentando pensar sobre o fato de elementos tradicionais, como saúde e educação, perderem importância frente à violência.

Que papel elas têm em sua trajetória?

São vias de comunicação. Neste momento, por exemplo, estamos fazendo um projeto sobre o Minhocão [via elevada que corta a região central de São Paulo] para uma revista brasileira. Ele expressa minha total revolta pela forma como a cidade é gerida sob o ponto de vista urbanístico. Vivemos num lugar onde ainda se constroem pontes, viadutos e anéis viários. Estamos, contudo, à beira de entrar em um processo de absoluto caos na cidade de São Paulo, por causa do total descaso com que é tratado o transporte coletivo. Em dez ou 15 anos, provavelmente vamos viver um momento histórico de caos. Gosto dessas exposições, desses projetos, enfim, de participar de mesas-redondas sobre os problemas da cidade. Incomoda-me muito ficar quieto frente ao que acontece por aqui. A junção da prosperidade econômica do país com o ritmo lento com que se constrói o metrô, por exemplo, é bombástica.

 

E como é esse projeto sobre o Minhocão?

Pediram-me uma reflexão sobre o centro da cidade. Fizemos três projetos. Um deles multiplica o Minhocão por seis, incorporando mais seis pistas expressas para dar força mesmo ao transporte, ironicamente. Nas outras duas propostas, uma teria grande área verde na cobertura, e a outra teria uma praia. Todos os projetos que faço são sempre viários, esse é o assunto mais irritante.

E o cinema atual lhe agrada?

Meu sonho foi um pouco embora quando Fellini morreu. Perdi muito do interesse no cinema. Mas há cinco anos voltei a participar.

Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 340 Junho de 2008

 

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Uma resposta para Marcio Kogan, seu lindo!

  1. Luciane de Siqueira disse:

    Sensacional a entrevista!!!

    Sou arquiteta formada na FAU / UFRJ de uma geraçao depois da do Marcio Kogan e tive uma trajetoria parecida pq entendo arquitetura com esse link com as outras linguagens artisticas.Entao na teoria vivida no mestrado e doutorado incorporei as artes plasticas sempre presentes na minha formaçao! E, posteriomente o teatro

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