A falta de lugares sagrados

Grande texto do Mini no blog Conector.

Não sei bem como é em outras cidades. Mas Porto Alegre é uma capital que carece de opções de passeios cobertos que não sejam shopping centers. Essa incrível e brilhante conclusão (uau!) me ocorreu quando eu e a Lucia queríamos dar uma volta numa terça chuvisquenta de carnaval sem necessariamente estar rodeado de vitrines, cartazes do Liquida Porto Alegre e aquele ar encapsulado dos shoppings.

Uma das poucas e boas opções nesse sentido, que salvou nossa tarde de pré-cinzas, é o Museu da Fundação Iberê Camargo. Porque ele não só é coberto como tem um recheio todo especial. Rende uma fenomenal caminhada! Nem todos os museus rendem um passeio desse porte. Alguns são antipáticos. Outros são cansativos. Tem também os quadrados, nos quais você fica caminhando em círculos (paradoxalmente). E a maior parte é fechada demais. Mas o Iberê tem uma conjunção danada de boa, com aquelas rampas, aquele vão central e aquelas janelinhas mortais que dão pro Guaíba. Lá, em vez de você simplesmente se meter num lugar com teto e ar condicionado, você, de fato, passeia. E também faz mais do que isso. Faz uma das coisas mais sagradas que tem pra se fazer: você respira.

Esses tempos, li não sei onde um artigo do Alain de Botton em que ele levantava a idéia dos museus como as catedrais leigas do nosso tempo. No texto, ele não enfatizava o lado de “adoração teísta” que muitas construções religiosas sucitam, mas sim o espaço de reflexão, contemplação e auto-investigação que brota dentro de um lugar desses. O respiro.

Por aí, não é muito difícil fazer a conexão catedrais-museus. A arte contemporânea, todo sabemos, mais do que nunca vem contanto com a participação ativa dos neurônios e/ou do coração do público, o que automaticamente exige momentos de contemplação, o que automaticamente exige espaço físico e mental pra acontecer. Então, quando eu cito o Alain de Botton e seu paralelo com as catedrais enquanto espaço de reflexão, deixo claro: eu quero me fixar mais no “espaço” do que na “reflexão”.

Digamos assim: espaços sagrados são sagrados não porque são sagrados, mas porque são espaços.

O respiro.

O respiro em dois âmbitos. Primeiro, espaços físicos, palpáveis, olháveis. Em segundo lugar, espaços mentais, grandes vazios subjetivos. Nos dois casos, são espaços valiosíssimos no atual mercado imobiliário psicológico porque são escassos. Não sei se você notou, mas nós andamos abarrotados e sem espaço pra nada. Faz parte da cultura urbana contemporânea não ter tempo, não ter espaço na mente, não ter espaço visual liberado nas ruas e nas casas. O medo do vazio talvez seja o grande medo urbano da nossa era, ali ali com o medo da violência.

(Aliás, uma vez um cara que trabalhava com serviço social me explicou por alto a relação entre a falta de espaço em cortiços e a violência sexual incestuosa. Creepy.)

Bom. O pé direito alto das catedrais já foi muito criticado pela intenção de fazer as pessoas se sentirem pequena em relação aos ícones religiosos, mas ele é uma das grandes qualidades das catedrais e de alguns museus. Eles oferecem… espaço. E, assim, nós temos aí um dos fatores que podem fazer de um lugar um catalisador pra noção de sagrado: espaços amplos, onde corpo, mente e coração respirem. É compreensível que muitos artistas iconoclastas critiquem a aura asséptica de muitos museus e queiram combatê-la com saturação do espaço físico, mas eu acho que essa saturação hoje nos serve menos do que a amplidão. Enfim.

O tamanho do lugar, claro, não é o suficiente pra respirarmos. Shopping centers frequentemente são amplos, assim como o são aquelas igrejas evangélicas-McDonalds gigantes que a gente vê por aí, cheias de luzes fluorescentes brancas e com fileiras de cadeiras genéricas. Ou seja, outro aspecto que precisa contribuir para tornar um lugar um catalisador de espaços internos é a atenção e a intenção investida na sua construção. Uma coisa é a igreja McDonalds, que parece ter sido erguida em série, pra resolver um problema prático. Ou um shopping, que nasce, obviamente, como intenções comerciais. Outra bem diferente, que vem a ser o segundo fator, é o local ser criado por arquitetos, engenheiros, operários ou artesãos que imprimem significados mais profundos no seu trabalho, às vezes intelectualmente, às vezes com bom coração ou com uma conexão natural com as outras pessoas.

O terceiro fator pra criação de espaços que criam espaço é o recheio. Curiosamente, esse terceiro fator consegue inclusive se contrapor ao primeiro e fazer de alguns lugares pequenos e escuros (como cavernas de meditadores ou pequenas galerias de arte alternativas) locais amplos. No caso da arte, obras consistentes e visitadas com um mínimo de boa vontade costumam gerar um valioso espaço interno, seja por quebra de percepção, seja por identificação entre obra e público, seja por semear terrenos férteis com dúvidas bacanas, seja por simplesmente ser um momento completamente diferente em um cotidiano concreto, tenso e previsível.

1) Espaços cobertos amplos 2) Intenções mais profundas 3) Recheio significativo.

Porto Alegre, assim como muitas grandes cidades, anda carente de espaços sagrados com esses três elementos. Não precisa ser catedrais ou museus. Mas espaços que ofereçam a possibilidade de caminhar por necessidade aeróbica mental e não corporal. Espaços de reconstrução de significados, mas sem grandes neuras intelectuais ou mesmo religiosas. Espaços com história – seja uma história que existe ou que ainda vamos criar.

Antigamente não falavam que no século 21 moraríamos no espaço? Pois é. A promessa, aqui embaixo, não se cumpriu.

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